quinta-feira, 15 de março de 2012

purgações

E eu que só queria tê-lo mais perto
por mais tempo
mais unicamente meu
Agora tenho só um silêncio doído
uma ausência
seu desdém
e sarcasmo no olhar
como a dizer eu te avisei
Na tentativa de não sofrer
me apego a santos
me prego em cruzes
me purgo e me alivio
Também ele não gostava de Clarice
não suportava Bethânia
não conhecia Ana C.
Prefiro seu silêncio estúpido
sua ausência
seu olhar ignorante
sua falta do que dizer.

(Celi Márcio Santos)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

por quase eternidades

Por destino ou maldição
quase tive tudo que quis
quase andei por todos países
quase fui embaixador
Os mares de todo planeta quase naveguei
até lavouras bem remotas quase cultivei

Por sorte ou insensatez
quase amei por toda vida
quase vivi em abundância
quase morri de doença rara
Os males que atingem milhões quase curei
até paixões inexistentes quase aceitei

Os projetos mais absurdos
os sonhos mais irreais
os planos mais descabidos
quase todos realizei

Por mágoa ou amor eterno
quase vivi nesse universo
quase nasci sem ter vontade
quase fui eu.

(Celi Márcio Santos, 18/01/12)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

História sem não

Escrevo uma história sem personagens
só um sentimento de leve coragem
Busco lembrar quais foram os planos
se já os perdi nesses muitos anos
E me questiono o que virá depois do fim
se essa história sou eu sem tanto de mim

Descrevo um cenário com mil detalhes
pra eu habitar livre de vis olhares
Coloco algum tanto de incerteza
nesta história sem qualquer grandeza
E me pergunto o que será depois de mim
se esse enredo não tem meio não ou fim.

(Celi Márcio Santos, 11/01/12)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sob a mão de Serendipity


A primeira sensação despertada ao ouvir o cd Serendipity, de Déa Trancoso, é, sem dúvidas, a de quietude. As canções são pautadas pela serenidade e pela delicadeza. Entretanto, não é um cd de poucas nuances nem econômico no sentimento. Mesmo não tendo pretensões camerísticas ou de tendências new age, é um trabalho referenciado na suavidade dos sons, na valorização da melodia e na singeleza das palavras.


Neste novo cd, Déa Trancoso aposta num minimalismo contemporâneo, considerado aqui um novo conceito que tem como principais características: a ausência de grande massa sonora, a síntese das letras que, embora simples na forma , apresentam impactante conteúdo de significados, e o silêncio como elemento de ligação dentro da música. Chamo de minimalista quando a canção transcende em sua simplicidade, sem, contudo, deixar de ter o seu lado mais elaborado e erudito.

Déa assumiu seu lado de compositora com a ousadia de quem não teme falar (e cantar) sobre sua vida e sua intimidade. Talvez por isso Serendipity soe tão sala de estar ou, para nós do Jequitinhonha, tão terreiro, tão pé do fogão. Ao dedicar duas músicas ao seu filho Francisco (Bem e Meu colo, tua casa) e outras a seus mestres Tavinho Moura (Pra Tavinho) e Egberto Gismonti (Gismontiana 2), a compositora Déa Trancoso divide com o mundo seu amor pelo que lhe é mais sagrado hoje. É também uma forma de dizer o quanto a música é hoje sua vida cotidiana e o quanto este é o seu universo de criação e criatura. A música Minha voz é a síntese desta entrega imperativa.

Diferente do seu trabalho anterior (Tum Tum Tum), o novo cd de Déa Trancoso é completa e profundamente oriundo de um universo único e particular (ou de uma visão única desse universo) e direcionado para o universo mais amplo e coletivo. Vem daí a preocupação com um som que não agrida, não sobrepuje a palavra, mas que, ao mesmo tempo, seja reverenciado como instrumento também de interiorização e caminho pro mundo.

Não me atreveria a dizer que Serendipity é um cd de contrastes, uma vez que contrastes traz a idéia de antagonismos. Serendipity é, antes, a soma e a multiplicação de processos criativos (mas também de vida) que, na música, são repartidos a todos que se disponham a ouvi-la. Se com Tum Tum Tum Déa nos revelou o resultado de suas pesquisas pelo cancioneiro popular do Brasil, com Serendipity ela nos revela o processo de pesquisa da existência. Pesquisa esta que eu chamo de “ser-estar-no-mundo” e que não tem resultado definitivo.

“Acalme essa brasa do mundo que arde e serendipity lhe dará a mão”

(Celi Márcio Santos)
*.*

domingo, 25 de dezembro de 2011


Das coisas que existem no mundo
poucas me mantêm a fé
Aprendi a não crer mesmo no que sinto
muito menos no que não vejo
no que inexiste muito pior
Das pessoas ainda vivas no mundo
poucas me despertam querer bem
Aprendi a não crer em tudo que dizem
muito menos a ouvir o que não dizem
e o que dizem sem saber
Aprendi a ter fé em mim
É que minha fé é por demais valorosa
Não dá pra tê-la sem certeza plena.
(Celi Márcio Santos)

domingo, 14 de agosto de 2011

Hora de recolher resquícios
de expectativas ilusões
desesperanças inações
cacos de enredos não vividos
poemas jamais lidos
Juntar em feixes qual lenha seca
e deixar queimar
Trancar portas janelas coração
pra que não entrem sequer cinzas
fumaça faísca ou carvão.

(Celi Márcio Santos, agosto 2011)
Ainda havia palavras 
outros versos
até sonhos
esperanças de presentes e futuros
Havia algo a desvendar

Ficaram no vácuo
no hiato de um não
folha em branco.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

encanto


E então deu-se o encanto
silente quieto taciturno
sem rumores sobressaltos
um tanto ousado
um tanto tático
lento como neblina ao morro
fabuloso como eclipse noturno
enigmático e duvidoso

Do encanto veio a coragem
necessária quase urgente
ágil como tempestade
frágil como neblina ao morro

Da coragem fez-se o ato
um tanto medroso
um tanto prático
Foi então que deu-se o encontro.


(Celi Márcio Santos, 12 agosto 2011)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011



Dou-lhe um verso e meu ombro
para que chores
se assim quiseres
Se for choro de angústia
dou-lhe palavras de conforto
meu abraço meu afeto
meu quase seguro porto
Se for choro de encanto
choro contigo
que o belo nos complemente
tão logo nos cesse o pranto
Dou-lhe um verbo e um convite
me deixa conjugar contigo
as flexões do verso amar.

(Celi Márcio Santos, 11 agosto 2011)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

cidade e luz

À luz das luzes artificiais


de uma cidade artificial

busco o breu mais oculto

mais arte menos ofício

na tentativa de ver por dentro

a cidade que eu mesmo planejo.

(Celi Márcio Santos, 01 de dezembro de 2010)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A sensação de despertença que ora vivencio


me faz estrangeiro em meu próprio corpo

condiciona minha existência às fugas de fronteiras

aos descumprimentos legais

à falta de brasões e hinos


Perdido de mim mesmo num lugar que não há

nada busco

nada espero

e o que quero não é daqui


Oro então

pelo fim da sensação de desesperança.


(Celi Márcio)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

na mira

Nada se move na noite mas há lua

Há então poesia presente e futuro
O que não se move ofega
Prega vida pulsa vitória
Eu no meu canto tento cantar
Espantar silêncios dodecafônicos
com minha voz desafinada
minha barba por fazer
livros amontoados
orações desesperadas
medo de mortes

Movo-me entre meus móveis
a fim de tudo mudar
a parede que me empecilha
pessoas que me entristecem
as coisas que não vivo por ser só

Mais fácil mudar o cabelo
o timbre da voz o jeito de olhar
Mudo meu olhar sobre o futuro
e movo-me rumo a ele
na mira da lua
da poesia
da vida.



(Celi Márcio Santos, 2004)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

direção

O que me conduz no mundo


nem sempre é o que condiz

ao peso forma altura da minh’alma

à fluidez do meu espírito

à pouca robustez do corpo que tenho



Andar de um lado a outro

tornou-se prerrogativa de existir

Nalgum dos lados deve estar

aquele onde devo chegar



Meu estar condizente no mundo

deve me conduzir ao lado melhor

que esteja dentro ou fora de mim

independente de peso ou forma

independente da minha alma

do meu espírito fluido

do corpo que decomponho.


(Celi Márcio Santos)

domingo, 27 de junho de 2010

caretas

Para escapar das multidões

crio minhas próprias grifes
epitáfios e esfinges

Esculpo máscaras em papel machê
rabisco marcas pelo chão
pra ter certeza de onde piso

Nem sempre são legítimas as grifes
Quase sempre são graves as máscaras
E as marcas pelo chão ora falham
pra me deixar sem saber quando pauso

As multidões das quais escapo são grades
jaulas móveis que aprisionam
grandes cadeias de inexistir

É sempre mais frágil esculpir máscaras
Menos fácil usá-las.

(Celi Márcio Santos)

terça-feira, 22 de junho de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

era só

Era só pó

não pra fazer fugir
Era só um poema
não pra te assustar
Era uma poesia
pra mostrar minha afeição
não mais nem menos
nem pré nem pós
Pois é
era só uma poesia.

Celi Márcio, 05 de maio de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

lado mais


Do que temos em comum
quero ver o lado mais
mesmo sem tê-lo conhecido
ao vivo em flores jardins
Pois o mais é o que nos soma
sem jamais somatizar dores

O lado mais comum da vida
é aquele que ainda não vimos
caminho ainda a fazer-se
de cores amores bons ares
Pois o comum é o que nos difere
sem contudo nos negar humores

Somos assim
comuns em humores amores
sempre querendo mais.

(Celi Márcio, 30 de abril de 2010)

domingo, 24 de janeiro de 2010

flerte



Somente bebo em português


e flerto em todas as línguas

Engasgo com versos alheios

em garrafas de meio litro

que nem sei quando acabam

Me embebedo em sânscrito

e saio a buscar tradutores

nos becos de qualquer cidade.

(Celi Márcio Santos)

inventário II



São bem poucos os bens que quero pra mim


um poema de Adélia Prado

uma xícara de café arábica

um disco de Yma Sumac

uma roupa de algodão cru

e uma porta

que eu possa abrir toda manhã

e ver o mundo que eu quis pra mim.

(Celi Márcio Santos)

exercício de levitação



Minha poesia segredo sustenida


levita

como aura de São Francisco

o santo a cidade o rio

o modo o medo o mote

Bobagens me preocupam

palavras sons formas rimas

santos e rios

Minha poesia sigilo existente

me dói a cabeça

na hora de escrever

e não consigo sair do chão.
(Celi Márcio Santos)

miudezas



Hoje quero o silêncio do meu quarto


o tic tac do meu relógio

seu retrato impresso em preto e branco

Sei que é por demais pouco

Hoje o pouco me é demais

Aprendo a querer pequeno

pra não sofrer o que em mim não cabe

Vou assim amiudando a vida

pra caber em qualquer canto

para depois me explodir no mundo.

(Celi Márcio Santos)

domingo, 17 de janeiro de 2010

trailer



Cenas diminutas em rápidos atos


minutos de ação que resumam enredos

ao som sabor vento e sentimento

Nascer viver morrer

vida eterna reencarnação ou limbo

como num trailer de cinema

a vida numa cena.

(Celi Márcio Santos)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ONDE


Abstive a intenção de seguir caminho

sem o nexo exato de onde chegar
tão menos pra onde retroceder
Das esquinas e bifurcações
só guardei a interrogação
a equação não resolvida
a dúvida óbvia absurdululante
de onde entrar
pra saber onde iria dar
e assim não mais voltar

Resguardei pistas achadas
sem lugar ou jeito de preservá-las
tão pouco como usá-las
porque o caminho tava ali
com esquinas equações
dúvidas óbvias bifurcações

E isso era tudo.

(Celi Márcio Santos, 6 de janeiro de 2010)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

descuido



Escapuliu-me um gesto de comedida benevolência


pra entender mazelas e desmazelos humanos

sem contudo aceitá-los todos

tão menos perdoá-los

Meu lado bom me incluiu em círculos

que nem sempre desejo estar

e afasta-me de mim mesmo

de meus segredos e públicos erros

A benevolência que ora exercito

torna-me um recalcitrante

ser efêmero pirracento

que desejaria ser só e bom

onde há alma

e cantar.



(Celi Márcio Santos, 27-10-09)