A primeira sensação despertada ao ouvir o cd Serendipity, de Déa Trancoso, é, sem dúvidas, a de quietude. As canções são pautadas pela serenidade e pela delicadeza. Entretanto, não é um cd de poucas nuances nem econômico no sentimento. Mesmo não tendo pretensões camerísticas ou de tendências new age, é um trabalho referenciado na suavidade dos sons, na valorização da melodia e na singeleza das palavras.
Neste novo cd, Déa Trancoso aposta num minimalismo contemporâneo, considerado aqui um novo conceito que tem como principais características: a ausência de grande massa sonora, a síntese das letras que, embora simples na forma , apresentam impactante conteúdo de significados, e o silêncio como elemento de ligação dentro da música. Chamo de minimalista quando a canção transcende em sua simplicidade, sem, contudo, deixar de ter o seu lado mais elaborado e erudito.
Déa assumiu seu lado de compositora com a ousadia de quem não teme falar (e cantar) sobre sua vida e sua intimidade. Talvez por isso Serendipity soe tão sala de estar ou, para nós do Jequitinhonha, tão terreiro, tão pé do fogão. Ao dedicar duas músicas ao seu filho Francisco (Bem e Meu colo, tua casa) e outras a seus mestres Tavinho Moura (Pra Tavinho) e Egberto Gismonti (Gismontiana 2), a compositora Déa Trancoso divide com o mundo seu amor pelo que lhe é mais sagrado hoje. É também uma forma de dizer o quanto a música é hoje sua vida cotidiana e o quanto este é o seu universo de criação e criatura. A música Minha voz é a síntese desta entrega imperativa.
Diferente do seu trabalho anterior (Tum Tum Tum), o novo cd de Déa Trancoso é completa e profundamente oriundo de um universo único e particular (ou de uma visão única desse universo) e direcionado para o universo mais amplo e coletivo. Vem daí a preocupação com um som que não agrida, não sobrepuje a palavra, mas que, ao mesmo tempo, seja reverenciado como instrumento também de interiorização e caminho pro mundo.
Não me atreveria a dizer que Serendipity é um cd de contrastes, uma vez que contrastes traz a idéia de antagonismos. Serendipity é, antes, a soma e a multiplicação de processos criativos (mas também de vida) que, na música, são repartidos a todos que se disponham a ouvi-la. Se com Tum Tum Tum Déa nos revelou o resultado de suas pesquisas pelo cancioneiro popular do Brasil, com Serendipity ela nos revela o processo de pesquisa da existência. Pesquisa esta que eu chamo de “ser-estar-no-mundo” e que não tem resultado definitivo.
“Acalme essa brasa do mundo que arde e serendipity lhe dará a mão”
(Celi Márcio Santos)
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